Marcado: democracia

O medo do debate franco

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As manifestações no Brasil, que levaram milhares de pessoas para as ruas, abrem uma grande possibilidade de debater uma reforma de toda a nossa representação política, além da necessidade de mudanças sociais e púbicas profundas. Mas, ao invés disso, vejo os partidos políticos – atuais e legítimas entidades representativas – reclamando de um suposto golpismo na ideia apartidária que permeia o movimento. E, todos, com medo do debate franco sobre o porquê tantas pessoas estão insatisfeitas com a política.

Antes de tudo, é preciso deixar claro: sou absolutamente contra qualquer tipo de violência, seja a dos que querem simplesmente se aproveitar do momento para vandalizar a cidade, seja dos que exigem a retirada de bandeiras de partidos ou organizações de classe. É algo desnecessário (burro?), que não combina com o tipo de protesto, nem com o espírito democrático. Mas que, felizmente, foi puxado por uma minoria.

Dito isso, seguimos: qualquer foto mostra que a grande maioria das pessoas que está insatisfeita com a classe política e partidária do Brasil. Muitos levantam bandeira da chamada esquerda progressista: movimento LGBT, por mais saúde, 10% do PIB para educação, contra a PEC 37, contra a corrupção. Em Natal, especificamente, ficou a mostra o número de pessoas que levantaram a bandeira do Fora Rosalba, por exemplo.

Uma pergunta: são bandeiras da extrema-direita? São bandeiras “golpistas”?

Me parece mais algo semelhante ao que ocorreu, por exemplo, no movimento espanhol M15m ou no Occupy Wall Street. Há uma visão generalizada de que os partidos, presos na sua extensa burocracia, não conseguem enxergar as reais necessidades da população. Se no caso europeu e norte-americano as críticas partem da forma como lidam com a economia, no Brasil é com a forma como a política é levada.

São os Sarneys e Renan Calheiros que se mantém no poder, independente de PSDB ou PT no governo, é o Feliciano na CDHM (por culpa do PT que queria a CCJ), é o fisiologismo absurdo que ocorre na política. Parece que é tudo em nome do poder. Isso em um país que está entre as 10 maiores economias do mundo, mas que continua com péssimos serviços públicos e com um dos piores IDHs. É isso que incomoda.

Vejo em muitas pessoas o medo que haja uma partidarização do movimento e, assim, um esvaziamento da ideia principal. E o que é essa ideia? Melhorias nos serviços públicos, garantia de direitos importantes ao movimento LGBT, uma política séria de combate à corrupção. Muita gente acredita que os partidos atuais são incapazes de levar essas pautas a frente porque estão desacreditadas no nosso sistema de representação política.

O PT deu uma grande contribuição ao país com a sua política de distribuição de renda e com os diversos avanços sociais que conseguiu. Mas hoje é um partido que, na minha avaliação, se aproveita disso como argumento para justificar seus erros. O Governo não é perfeito, errou no mensalão, errou na política de incentivo ao uso de transporte individual, erra toda vez que abre mão de pautas históricas em prol dos evangélicos. Erra quando apoia oligarquias no Brasil. E quando há crítica, o que fazem? Bradam: é golpismo. (Apesar disso, ainda acho o partido com o maior número de bons políticos do Brasil)

Esse é o problema. Há um medo de cortar da própria carne. Há um medo de se renovar e promover um debate sério e crítico sobre como melhorar o sistema político, sobre como melhorar a representação partidária e, ao final, de como melhorar o país. Se as pessoas acreditam que os partidos são incapazes de promover pautas importantes no Brasil, há algo de muito errado. E não é com as pessoas. É com os partidos.

É hora de eles se repensarem, ao invés de acusar tudo de “golpismo da extrema direita”. De promoverem debates e de tentar se aproximar desse desejo de mudança que está expresso, há muito tempo, na população. Uma necessidade que é demonstrada seja na quantidade de votos nulos que as eleições andam tendo, seja nessa descrença generalizada com a política.

Precisam fazer isso sob pena de se esvaziarem. É preciso parar, respirar e repensar as ações. Estar mais conectado ao que acontece fora do umbigo dos partidos e, também, precisa-se aceitar melhor as críticas externas. Não é a esquerda que está em crise (aliás, ela hoje está em seu melhor momento da história), mas a sua representação política.