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Violência desmedida no Carnaval

redinha

As imagens são fortes. Policiais militares “em ação” contra parte das pessoas que, na quarta-feira de cinzas, saía no famoso bloco Baiacu na Vara, no bairro da Redinha.

Em uma delas, a que ilustra este post, um PM aponta uma metralhadora para uma pessoa. Outras imagens e um vídeo gravado pela internet reforçam tudo isso.

A polícia, oficialmente, declarou que estava apartando briga entre gangues que estavam no bloco. A versão dos foliões contradiz: uma viatura teria forçado passagem pelo bloco. Como não conseguiu, um dos policiais atirou para cima. Em seguida, a confusão ficou instalada.

O resultado: cinco pessoas detidas e uma série de protestos contra o excesso de violência policial..

O comando da PM diz que vai investigar os abusos. Se assistirem aos vídeos e verem as fotos, não há o que investigar, os excessos foram flagrantes, os responsáveis por eles devem ser punidos.

O que reforça todo o absurdo e o grau de ironia do fato, também, é que na mesma quarta-feira oito pessoas foram assassinadas em Natal. E que o Carnaval deste ano teve uma aumento em 155% no número de homicídios.

Pelo andar da carruagem, a próxima crise do Governo Rosalba – que desanda na saúde – será na segurança pública.

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Salve o teu Carnaval

Carnaval_Olinda2

Uma imagem muito forte do carnaval não me sai da cabeça.

Olinda, 2009, recém chegado de um mochilão pela Europa, fui encarar a minha primeira aventura no Recife. Depois de problemas na rodoviária, com a hospedagem e com o clima chuvoso, finalmente consigo me instalar.

Atraído pelo barulho, ao olhar pela janela vejo uma multidão cantando, a plenos pulmões, ignorando tudo, todos e até o mau humor do tempo. “Olinda, quero cantar a ti, esta canção…”

A imagem era de uma espontaneidade impressionante. O carnaval ali era carne e coração daquelas pessoas. A comoção dos gritos, a entrega da alma às letras da música, tudo confluía em um quadro único e belo. Nunca mais esqueci.

Não é difícil, em Olinda, deixar o corpo se embalar pelo clima que a cidade exala. É o carnaval em uma expressão de pureza difícil de ser descrita e que vai muito além da imagem clichê e moralista de “álcool e putaria”, como é insistentemente difundido.

Depois daquele dia, nunca mais encarei a festa da mesma forma. Nem mesmo aqui em Natal, onde a intensidade do feriado não é tão elevada.

Há um quê de anarquia nesse período. Não dentro da imagem padrão que a palavra anarquia nos remete, mas recheada de um sentido mais amplo e puro: liberdade.

Carnaval tem disso, dessa sensação de tomar as ruas, festejar sem nenhum motivo para tal, sorrir e cantar, a plenos pulmões, mesmo que o mundo lá fora esteja uma bagunça. Mesmo que a vida real seja tão difícil e muitas vezes triste.

É um período que guarda uma característica até egoísta, apesar de não ser individualista por natureza.

São vários egos que determinaram de uma hora para outra: não há problemas em viver e que a nossa vida deve ser de cantar, sorrir, amar.

Mesmo que seja só durante esses cinco dias.

Não duvido que haja estudos sobre o comportamento neste período, ou sobre como as pessoas ficam diferentes.

Mas estudos, críticas, elogios – nada disso faz sentido. É preciso sentir o carnaval, experimentá-lo na liberdade que lhe é inata e nessa sua essência anarquizante. Cantar como se não houvesse amanhã.

E é por conta dessa embriaguez única vivenciada apenas nesse período, uma vez por ano, que o último verso do hino do elefante faz um para as gerações que estão por vir:

“Olinda (…) Salve o teu Carnaval”.

Ps. Um feliz feriado a todos. Este blog volta na quarta-feira de cinzas.