Categoria: Jornalismo

O homem que roubou um colchão

o homem que roubou o colchão

A cena é lamentável e é outra prova do despreparo da polícia. Foi noticiado pelo site do Via Certa Natal. Sábado, fim de tarde, uma ocorrência de roubo de colchão no Via Direta, shopping de Natal, perseguição e logo depois um homem é preso.

O vídeo mostra o suspeito no chão, rendido. Alguém que parece ser um policial com o pé nas costas do suposto ladrão, apontava uma arma de fogo para ele. Isso em plena via pública.

Posava como se o suposto criminoso fosse um troféu, ou um animal.

Minutos mais tarde aparece o patrão do rapaz deitado no chão.

Segundo diz, ele e o rapaz compraram aquele colchão, mais cedo, de outra pessoa nas imediações do shopping. Combinaram um horário para ele pegar o produto, quando foi surpreendido pela polícia.

Ao ficar sabendo, o patrão do rapaz correu para o local e, além de protestar quanto à humilhação e à forma absurda que o “suspeito” estava sendo tratado, contou a sua versão da história.

Falou que o colchão era para um dos seus funcionários, que dormia num apartamento com sete pessoas. Ele tinha pagado R$ 80 por ele.

Admitiu que não deveria ter comprado o produto de um desconhecido, mas disse que era impossível saber se o colchão era roubado ou usado.

Independente de o acusado ser de fato um ladrão ou não, o vídeo é a prova clara de que a lógica da justiça é invertida: no Brasil se é culpado até que provem o contrário, principalmente se você for negro ou pobre.

Gostaria de saber o desfecho do caso e torço para que tanto o policial responsável pela ação como a corporação sejam processadas.

O dever da polícia não é humilhar o cidadão, independente se for bandido ou não, mas garantir que as leis sejam cumpridas.

Violência desmedida no Carnaval

redinha

As imagens são fortes. Policiais militares “em ação” contra parte das pessoas que, na quarta-feira de cinzas, saía no famoso bloco Baiacu na Vara, no bairro da Redinha.

Em uma delas, a que ilustra este post, um PM aponta uma metralhadora para uma pessoa. Outras imagens e um vídeo gravado pela internet reforçam tudo isso.

A polícia, oficialmente, declarou que estava apartando briga entre gangues que estavam no bloco. A versão dos foliões contradiz: uma viatura teria forçado passagem pelo bloco. Como não conseguiu, um dos policiais atirou para cima. Em seguida, a confusão ficou instalada.

O resultado: cinco pessoas detidas e uma série de protestos contra o excesso de violência policial..

O comando da PM diz que vai investigar os abusos. Se assistirem aos vídeos e verem as fotos, não há o que investigar, os excessos foram flagrantes, os responsáveis por eles devem ser punidos.

O que reforça todo o absurdo e o grau de ironia do fato, também, é que na mesma quarta-feira oito pessoas foram assassinadas em Natal. E que o Carnaval deste ano teve uma aumento em 155% no número de homicídios.

Pelo andar da carruagem, a próxima crise do Governo Rosalba – que desanda na saúde – será na segurança pública.

Alunos da UFRN denunciam censura na TV Universitária

TV-Universitária-UFRN

Ao que parece, nem a TVU anda livre de pressões externas para evitar que determinadas matérias sejam veiculadas. Alunos e funcionários da UFRN denunciaram via Facebook uma censura ocorrida em uma matéria que falava do descumprimento, por parte do estado, da carga horária dos professores da rede estadual de ensino. Pelo que consta, o repórter chegou a ser ameaçado. E na matéria, qualquer citação ao governo foi apagada.

O corte teria sido ordem da reitora Ângela Paiva Cruz.

Segue o texto sobre a censura.

“Só para esclarecer: A matéria foi exibida decepada. Era sobre a irregularidade na jornada de trabalho dos professores estaduais, que aqui no RN descumpre a lei federal 11738/2008. Uma certa secretária estadual de educação não quis/pôde gravar entrevista, não quis dar resposta nenhuma e ainda ameaçou a repórter de ligar para a Reitora. Colocamos a informação numa passagem e fizemos sonora com o Sinte-RN explicando as dificuldades de diálogo com o Governo, o quanto isso prejudica o trabalho dos professores. A matéria foi ao ar com um trecho curtinho dessa sonora e toda e qualquer menção ao Governo foi excluída!!!”

A mensagem é atribuída a Iano Flávio, jornalista e funcionário da TV Universitária, apesar de não ter sido postada por ele. Veja a publicação no facebook.  A atual secretária estadual de educação é Betânia Ramalho que, até 2010, fazia parte da Comperve, entidade que organiza as provas do vestibular da UFRN.

Nesse contexto, vale lembrar uma frase atribuída ao escritor George Orwell: “Noticia é algo que alguém não quer ver publicado, todo o resto é publicidade”.

Atitude mais que lamentável da TV, principalmente por se tratar de um espaço público que, em tese, deveria sofrer com menos pressão para a escolha (ou não) de matérias. Esperemos o desenrolar.

Exupéry esteve em Natal

Foto reproduzida do livro "Assas sobre Natal"

Foto reproduzida do livro “Assas sobre Natal”

Exupéry esteve em Natal.  Melhor ainda, começou a escrever seu grande romance “O Pequeno Príncipe” sob a sombra do baobá de Diógenes da Cunha Lima. O ar tranquilo, o clima ameno, o visual bonito contribuíram para a inspiração do escritor.

A pequena capital do Rio Grande do Norte teve uma baita contribuição para a história da literatura mundial e é uma espécie de co-responsável pelo personagem que encantou a vida de milhares de pessoas em todo o mundo. Ponto.

Em uma cidade com tanta baixa auto-estima como a nossa, é melhor acreditar nesta tese defendida pelo livro “Asas Sobre Natal” de João Alves de Melo e pelo escritor Diógenes da Cunha Lima do que ficar no argumento dos pessimistas que afirmam que Exupéry nunca passou por essas terras.

Sempre fui a favor de que, na dúvida, é melhor adotar sempre a versão mais otimista. Os gregos fizeram isso e devem grande parte da sua cultura épica de grandes heróis a florear versões. Mossoró faz isso com a história dos “heróis” que expulsaram Lampião e seu bando da terra de Santa Luzia.

E por que, em Natal, tendemos sempre a optar pela versão mais pessimista das coisas?

Não há provas absolutas que comprovem ou não a passagem do escritor por essas terras. O que há são indícios fortes dos dois lados. Um deles, é a foto que ilustra este post e que, ao meio, mostra Exupery supostamente em Natal.

Tá, eu sei que Diógenes da Cunha Lima e sua obsessão por aquele baobá é de um pedantismo ridículo.  Não se trata de defender nenhum dos dois, se trata de de querer criar um elemento cultural positivo para a cidade.

Temos de alimentar a lenda, mesmo que não haja prova suficientes de que foi real. Devemos ensinar aos nossos filhos que Exupéry esteve aqui e que esta terra é inspiradora e capaz de fazer brotar frutos.

Devemos exigir do poder público que crie praças e eventos que homenageiam este fato. Livros sobre isso devem ser escritos. Redações em colégios devem ser feitas. Um universo mítico tem de ser criado.

Elementos como esses fazem bem à cultura e estima natalense. “Asas sobre Natal” pode ser um marco disso tudo.

Melhor do que continuar alimentando a síndrome de vira-lata que tanto nos persegue.

Jogos escolares e a desorganização do RN

Abertura. Foto rogerio vital (106)

Foto rogerio vital (106)

Durante uma semana, Natal sediou os 18º Jogos Sul Americanos Escolares.

O evento é uma espécie de Jerns que envolve toda a América do Sul. Ao todo, onze países enviaram atletas para as competições. No primeiro dia, houve uma reunião com ministros e representantes dos governos para definir as diretrizes do esporte escolar no continente.

Na terça-feira ocorreu em Natal o lançamento do Gymnasiade, espécie de olimpíadas para atletas de 14 a 17 anos. A competição será sediada em Brasília no ano que vem.

O que chama a atenção é, primeiro, a falta de interesse da mídia local com os jogos. Há mais destaque na Argentina ou no Chile, por exemplo, do que no Rio Grande do Norte.

A cobertura esportiva mantém-se nas fofoquinhas do futebol, já que os campeonatos acabaram. A mesma chatice todo ano. Um e outro jornal publicaram matéria, a maioria ficou só pelos releases. A TV só apareceu na abertura.

Muito fraco tendo em vista a importância continental dos Jogos.

Outro dado é quanto a desorganização do estado. A competição pode ser vista como uma espécie de prévia da Copa do Mundo.

E, mesmo com a estrutura e importância menores, é possível perceber falhas graves.

Isso tudo fora a atual situação de Natal, uma cidade com cara de abandono. A impressão que os estrangeiros tem é da pior possível.

O Carnatal e o uso da máquina pública em benefício privado

carnatal 2

Nestas calorentas terras próximas à linha do equador, o início de dezembro é sinônimo de Carnatal, o maior carnaval fora de época do país

O evento é uma cópia do carnaval baiano. Trio elétrico, abadás vendidos a preços inflacionados e o pior da música com  o axé e suingueira em um alto volume.

Até aí, não tenho problemas. É legítimo que haja a festa, muita gente gosta de pagar fortunas para cair na folia ouvindo uma sequência de bandas ruins.

O que me irrita nisso tudo é o uso do poder público para algo privado.

A primeira coisa é quanto ao local, no largo do antigo Machadão, um dos gargalos do trânsito natalense.

Se, em dias normais, passar por ali já é caótico, nos quatro dias de Carnatal vira um inferno, prejudicando a vida de milhares de pessoas que nada tem a ver com aquilo.

Todo ano me pergunto: por que não fazem o diabo desta micareta insuportável em outro lugar? Mais afastado de quem mora próximo ao corredor da folia e feito de uma forma que não se prejudique a maioria. Exigir isso deveria ser dever da prefeitura.

Mas, como em Natal o público e o privado se confundem, órgão municipal não só apoia, como patrocina um evento em que o abadá dos mais baratos custa mais de R$ 100. Investe nele sob o pretexto de “apoiar o turismo”.

O irônico é que passa o ano inteiro sem investir adequadamente na infraestrutura turística para torrar o dinheiro apenas no Carnatal.

Perguntar não dói: qual a contrapartida que o micareta dá a cidade?

Muita gente vai responder que movimenta a economia. Certo, mas movimentaria da mesma forma se fosse em um lugar privado, não em uma via pública, e se os organizadores tivessem compromissos sociais e cívicos, como fazer a coleta do lixo depois da festa.

E, sinceramente, o Carnatal não precisa da prefeitura para andar com as próprias pernas. É uma marca poderosa, reconhecida em todo o Brasil e que independe de dinheiro público para dar certo. Mas por que, ainda assim, insiste em usar o dinheiro dos nossos impostos para acontecer?

Neste ano, aparentemente, a coisa ficou ainda mais grave.

O prefeito em exercício Paulinho Freire é dono da empresa que produz o Carnatal, a Destaque Promoções. Como assumiu com a cidade em estado caótico, fez o que foi melhor para ele: usou a estrutura da prefeitura para limpar a área da micareta e alguns pontos turísticos. Enquanto isso, os bairros continuam numa situação caótica.

Em suma, o prefeito usa o seu, meu e nosso dinheiro para benefício da empresa que é dono.

Uma apropriação deslavada da máquina pública em benefício privado, crime que, infelizmente, na Natal onde ninguém se dá muito mal, passa impune.

A política de Natal e suas macacadas

Edivan "impacto" Martins

Edivan “impacto” Martins

A política natalense tem lá suas macacadas.

A última rolou depois do resultado final das eleições municipais em outubro. O juiz eleitoral Verlano Medeiros foi o relator do processo que anulou a coligação de Raniere Barbosa e George Câmara e, no tapetão, tirou o mandato dos dois.

O motivo foram irregularidades com o registro do PT do B, partido coligado com o PCdoB de George e o PRB de Raniere. Por isso, ele decidiu anular todos os votos da coligação.

A saída possibilitou a entrada de um dos piores vereadores da última legislatura, Edivan Martins e também de Cláudio Porpino – suplentes diretos.

Mas há mais detalhes interessantes nesta macacada jurídica-eleitoral: Verlano Medeiros, que também é candidato a desembargador, teria sido advogado de Edivan antes de assumir seu posto como juíz eleitoral.

Para ficar mais temperada, Medeiros, ao detectar irregularidades no PTdoB, poderia ter anulado apenas os votos do partido – como seria mais justo. Mas os pífios 600 sufrágios não seriam o suficiente para tirar George e Raniere. Decidiu, portanto, anular toda a coligação.

E, por muito pouco, a macacada não passa.

Ontem o TRE desfez provisoriamente a cagada e, por 4 votos a 2 deu de volta o mandato para George Câmara e Raniere Barbosa.  De quebra evitou, por enquanto, que Natal passasse mais quatro anos com o impactado “valeu boi” como vereador na Câmara, um a menos na luta por uma cidade melhor.