Arena, Lady Baginski e a rebeldia às avessas

Ela tem 23 anos, usa um cabelo vermelho, tem piercing no lábio inferior e fala que a Arena – aquele partido da ditadura militar –  é uma “coisa legal”. Surreal, heim? Para quem não sabe, a garota em questão chama-se Cibele Baginski, gaúcha de Caxias do Sul, que ganhou notoriedade por tentar refundar o partido conhecido pela tortura e pelos anos de chumbo no Brasil.

Numa espécie de rebeldia às avessas, ela critica um suposto “esquerdismo” dominante e propõe a construção de uma legenda de direita, conservadora e nacionalista, para salvar o país. Cibele é um personagem que intriga, fruto de uma geração que acredita que um governo de mão forte e centralizador seria o único capaz de combater a corrupção.

As bandeiras do partido de Cibele incluem coisas como a retirada de qualquer tipo de cota social, o ensino obrigatório de “Educação Moral e Cívica” nas escolas e, até, a estatização das empresas que exploram os recursos naturais do Brasil. Aliás, esta última proposta é habitualmente mais abraçada pela esquerda do que pela direita, que defende a liberalização econômica.

Mas, uma das coisas que a faz uma das personagens mais interessantes já aparecida neste maravilhoso mundo da internet é que, se não fossem os ideários de liberdade moral e civil, abraçados por parte da esquerda latino-americana, dificilmente ela poderia usar um cabelo vermelho, ou ter um piercing no lábio, votar ou até querer fundar um partido.

Uma breve pesquisa na internet, revela a Lady Baginski –  como gosta de ser chamada na rede – como uma fã de animes que escreve histórias fictícias, as chamadas fanfictions, que gosta de tocar teclado e dona de pelo menos seis blogs diferentes. Além disso, ela tem um perfil no Badoo, rede social de relacionamentos amorosos, onde ela, simpaticamente, convida os interessados para uma cerveja.

Baginski se descreve nos blogs como alguém entediada, mais inteligente que 80% do mundo e revoltada com a corrupção vigente no Brasil. Não é preciso ser um psiquiatra para chegar a conclusão que estamos diante de, nada mais, nada menos, uma jovem  menina no interior imatura e rebelde. Sendo que rebelde às avessas, lutando por algo que contradiz a ela própria, às conquistas que ela tira proveito.

Não condeno a rebeldia, acho-a mais interessante porque nos força a pensar por outras óticas. Mas é engraçado ver pela primeira vez um rebelde querendo reafirmar tudo aquilo que, com muita luta, outros rebeldes conseguiram que a sociedade superasse. Talvez Baginski não saiba – até prefiro pensar que ela é mais ingênua do que mal intencionada – mas ela anda querendo reavivar modelos políticos que foram enterrados por usarem do preconceito e do autoritarismo nas suas formas de governar.

Ela me parece querer mudar o mundo lutando por aquilo que fez o mundo ficar justamente como ele é hoje: injusto, desigual e corrupto. Em entrevistas, Baginski afirma que a ditadura foi responsável pelo “maior período de desenvolvimento do Brasil”. Mas isso ocorreu a custa de quê? Do desmonte do ensino público, da morte de milhares de pessoas, da ausência de direitos civis e liberdade de imprensa.

Um desenvolvimento que inflou o bolo dos ricos, não dos pobres e teve graves consequências. A ditadura conseguiu, através desse ‘desenvolvimento’, empurrar o país para a hiperinflação e para o maior período de recessão já vista nos anos seguintes. Ou ela pensa que os anos 80 nada têm a ver com o milagre econômico brasileiro dos 70?

Acreditar, por exemplo, que na ditadura não houve corrupção é ser ingênuo. O que não havia era a possibilidade de investigar e divulgar os casos de corrupção na época, porque se assim o fizesse, o jornalista era torturado e morto. É melhor hoje que podemos saber da existência do mensalão e de outros escândalos e cobrar dos órgãos uma atitude do que há 30 anos quando nada disso podia ser divulgado.

Mas é uma pena que ela drene a rebeldia para isso: ressuscitar algo que deveria permanecer morto. Torço para que a Baginski não tenha sucesso e para que a maturidade política não demore muito a chegar, afinal, ela poderia usar essa capacidade de mobilização que tem para, de fato, tentar mudar este mundo desigual que vivemos.

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  1. francisco batista

    Vitor e Amanda,os dois parecem estar bem acostumados a estes desmandos que estao acontecendo
    no brasil,e satisfeitos com isso.Por isso nao querem que ninguem apareça com ideias mais firmes e de
    maior clareza.A mesma ideia tem esse diario reporter,que tambem deve ter sido pago para publicar estas
    asneiras.

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